Os prisioneiros
Em princípio, acredita-se que prisão é apenas uma espécie de jaula onde estão aqueles que cometeram um crime. Mas uma prisão está para além dos que necessariamente quebraram o contrato social, está para além também dos manicômios, das fábricas, ou seja, dos lugares em que as pessoas são postas por “carcereiros” contra vontade. Tudo que restringe a liberdade é uma prisão e há as prisões em que as pessoas se colocam espontaneamente.
A questão da prisão tal como conhecemos, é que ela impede um corpo de ir de A para B, porém o que causa sofrimento a princípio no condenado não é a privação da ação, mas a angústia gerada pelo desejo, quer dizer, é mais mental do que físico. Sendo assim, se uma pessoa está apaixonada, está presa ao corpo de outra pessoa; se sofre de ódio, também. O corpo é o que menos importa no primeiro momento, o corpo será o catalizador das angústias, uma fábrica de doenças. O prisioneiro sofre pela obsessão de liberdade; o que sofre de paixões, de conquistar ou de destruir o objeto de desejo. Nesse ponto, um prisioneiro real pode ser mais saudável que um prisioneiro do pensamento. Tudo dependerá de como se sabe lidar com as situações; um morador de rua pode ser mais livre, mais vivaz que um burguês que é prisioneiro do medo de perder tudo.
A causa principal das prisões voluntárias é o não-Filosofia. Foram os pensadores que deram suas vidas para a construção de um pensamento libertador, de uma ética, que mesmo que a maioria não os conheçam, são eles que empurraram o mundo contra o ódio (um derivado da tristeza), que é o câncer do homo sapiens. Um mundo onde o ódio é a força principal já teria desmoronado se fosse apenas sustentado pelas religiões. Seria como se dissesse: quem crê num Deus, não se vinga, não odeia, não produz guerras, mas a religião em nada interfere. As máximas cristãs: “Ame teu próximo” ou “Ame teu inimigo”, tem tanta eficácia prática como a filosofia para aqueles que a negam, porque o grande problema central que impede a filosofia de avançar e não ficar restrita a uma minoria, é que ela foi absurdamente transformada em um produto, tal como se tornou a religião: vende-se a fé, a salvação, a prosperidade, a cura da alma e do corpo, o amor, mas nunca a ética, a arte do comportamento. No caso da filosofia, enquanto produto, perde-se sua eficácia por não ter como finalidade levar o pensamento para a liberdade de criar, de se opor, mas para alcançar a felicidade, sempre haverá um bloqueio: tudo que pode ser sensível, raro, a pessoa pensa que entendeu, mas a mensagem bate no muro branco, na significação, e logo é esquecida. Não atinge aquilo que poderíamos chamar de glândula da sensibilidade, que transforma, que vai fazer parte da existência, como foi dito por Diógenes, que a filosofia é aquilo que deixa pronto para qualquer eventualidade, noutras palavras, aquilo que liberta das prisões.
Há um exemplo maravilhoso de como a filosofia vai ao encontro para modificar, libertar, no caso Nietzsche, que após a descoberta de Schopenhauer e de devorar o Mundo como Vontade e Representação, nascera novamente, e a partir daí já não era mais o mesmo. Porém, embora Schopenhauer viu o mundo não de maneira pessimista, mas realista, que “o mundo é um inferno habitado por espíritos atormentados e demônios”, Nietzsche viu que a fórmula para se livrar da prisão da Vontade era uma outra face do niilismo: “como fazem os indianos, como reabsorção em BRAHAMA ou NIRVANA dos budistas”, diz Schopenhauer, “antes, reconhecemos: para todos aqueles que ainda estão cheios de Vontade é, de fato, o nada. Mas, inversamente, para aqueles nos quais a Vontade virou e se negou, esse nosso mundo tão real com todos os seus sóis e vias lácteas é – Nada”. Portanto, o nada, a fuga da vida. Não seria o mesmo niilismo cristão de negar a vida humana para alcançar uma recompensa no além tumulo? Tanto Schopenhauer como os ensinamentos orientais têm uma filosofia prática: se você nega a vontade, você nega a alegria e uma vez negando a alegria, todo sofrimento, toda dor é indiferente. Eu não ligo para o amor romântico, eu nego o amor, logo se eu não tenho um amor, se eu perco um amor, isso não me faz diferença.
Nietzsche então se desvincula e vai ao encontro de um deus, o deus grego que é o mestre da oposição das religiões da decadência, diz ele: “O homem trágico afirma ainda o mais acerbo sofrer: ele é forte, pleno, divinizante o bastante para isso; o cristão nega ainda a sorte mais feliz sobre a terra: ele é fraco, pobre, deserdado o bastante, para cada forma ainda sofrer com a vida. O deus da cruz é uma maldição sobre a vida, um dedo apontado para redimir-se dela: - o Dionísio cortado em pedaços é uma promessa de vida: eternamente renascerá e voltará da destruição”. E assim, se alguém disser um Sim para uma alegria, também vai dizer Sim para todas as tristezas.
Desta forma, o mundo não é o inferno, é uma prisão, estamos constantemente presos a um lugar, uma situação, um problema, uma pessoa, a solidão, o desespero; e a vantagem da filosofia é que ela é a única que tem as chaves para procurar a que encaixa na fechadura para sair, e quando se encontra, se diz com a alegria do herói diante da vitória: eu me libertei, me libertei por mim mesmo, me libertei de mim mesmo.
Marcos Ribeiro

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