O que é ser Ruim?
O que é ser ruim? Por que a ruindade é tão viva e constante nas nossas vidas a ponto de muitas vezes a fazermos sem nos darmos conta que a estamos efetuando? A ruindade está praticamente colada ao ressentimento: "se sofro, é por tua culpa e por isso me vingo", mesma fórmula do cristianismo e da psicanálise. Quantas pessoas dizem, por exemplo, ao fim de um relacionamento: não busco uma justiça ideal para dizer quem errou, logo provavelmente posso ser eu o culpado. Ou, minha frustração é exclusivamente por incompetência minha.
Por que tem que ser sempre o outro o culpado? A culpa da Eva, da serpente, seguindo a sentença de Sartre: “ O inferno são os outros”? Por que quase ninguém diz: não sei quem errou, não quero ser juiz, pois os juízes muitas vezes erram, o tempo que vai se mostrar. Porém a descoberta de Nietzsche avalia com precisão o fenômeno: o reconhecimento do erro vem, mas sempre depois que o ódio se desvanece para dar lugar a má consciência, o ódio que se volta contra si. “Eu sou mau, que horrível sou!”.
O ruindade é banal, difamar um desafeto, mentir, agredir, ou até mesmo matar, basta um excesso de fúria daquele que está ressentido, Raskólnikov foi o maior exemplo da literatura, matou apenas pela cobiça e ódio da velha agiota ( Raskólnikov se equivocou ao pensar que sairia ileso ao se comparar com Napoleão ou César, eles foram maus, maus na própria natureza que é outra raça), mas aí entra a psicologia formidável dostoievskiana: da ruindade sem volta, que não é simplesmente agredir um animal irracional, de querer uma moral de um bicho que se efetua como bicho, é a perversidade que se diz: tarde demais. E esse tarde demais vai se tornar uma tonelada na consciência, um tormento infinito como o da lenda do Judeu errante. Quem sofre, ou acredita que sofreu uma injustiça, deveria apenas pensar (não da maneira esdruxula da lei do retorno místico), essa pessoa também vai conhecer o inferno, o inferno interior, o mal faz parte da existência e o fantasma volta, noites e noites de terror conhecerás.
Por fim, estamos todos a mercê das ruindades, das atrocidades, das traições, mas quem é traído, não seria melhor dizer como na peça de Nelson Rodrigues? “Perdoa-me por Me Traíres”, e se não for assim, quem não quiser viver no circo das ruindades, só há maneira, deve agir como Zaratustra: “fugi da praça pública.”
Marcos Ribeiro

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