O engano do "Eu"
Já foi falado: somos o outro desde o útero da mãe, quando começamos a ouvir as palavras; ao passo que quando morremos, não somos nós que morremos, são os outros. De uma maneira ou de outra, todo grande pensador ou todo grande artista disseram a mesma coisa: crie a sua própria vida. Nietzsche ensinou que devemos sair do homem, ultrapassá-lo: além de...uma outra coisa que nem nós sabemos o que é, um eterno porvir. Foucault, algo bem próximo: “Não me pergunte quem eu sou e nem para permanecer o mesmo”. Deleuze e Guattari sempre diziam: “dessubjetivação”, “dessignificação”, não interpretem nunca, não deixem que o interpretem.
Man Ray, perguntado em como ser um grande artista, respondeu: "seja você mesmo". Mas como sermos nós mesmos se a todo momento somos subjetivados pela TV, pelas redes sociais, pela moda, pela política e/ou até mesmo pelos amigos e a família? Costuma-se ouvir: “ah! Eu tinha um pensamento sobre um assunto, mas meu amigo me falou...Minha mãe me disse que...”, ou seja, quando poderemos destruir e construir a nós mesmo? Porque, por mais que o outro seja bem intencionado, é uma ideia que vem de fora, uma forma de subjetivação, como se fosse um conselho de um padre ou de um psicanalista e, além de tudo, não ultrapassa a opinião que sempre vai contra a filosofia, do momento da solidão em que se pode de fato pensar, ultrapassar o muro branco, modificar o eu acho para o é assim que eu quero.
Nada mais que não seja isso é filosofia, é o pastor, o sábio, o erudito quando dizem: “eu sou a verdade”, a verdade que chamam de conhecimento, tão inútil como Nietzsche escreveu: “Em algum canto perdido do universo que se expande no brilho de incontáveis sistemas solares, surgiu certa vez, um astro em que animais espertos inventaram o conhecimento. Esse foi o minuto mais arrogante e mais mentiroso da história do mundo, mas não passou de um minuto. Após uns poucos suspiros da natureza, o astro congelou e os animais espertos tiveram de morrer. Foi bem a tempo: pois, se eles vangloriaram-se por terem conhecido muito, concluíram por fim, para sua grande decepção, que todos os seus conhecimentos eram falsos; morreram e renegaram, ao morrer, a verdade. Esse foi o modo de ser de tais animais desesperados que tinham inventado o conhecimento.”
Somente assim, aniquilando as verdades é que compartilhamos livres com a natureza a existência — e não apenas à mercê dela e das sombras que nos acorrentam — como o voo de um pássaro, uma nuvem, um tufão, um rio, ser aquilo que é, que está sendo e não mais sendo.
Marcos Ribeiro

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