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SOBRE O LIVRE-ARBÍTRIO, A LIBERDADE E A PRISÃO, POR MARCOS RIBEIRO

outubro 03, 2019 Marcos 0 Comments Category : ,




O cristianismo ensina que a queda do homem ocorreu pelo fato de Deus ter dado a Adão o livre-arbítrio, assim sendo, segundo essa explicação, somos livres para escolher entre fazer o mal e o bem e que para entrar novamente no paraíso, devemos resistir as tentações das nossas vontades e não mais voltar a comer do fruto proibido.
A filosofia determinista diz o contrário: não! não existe essa simplicidade de escolha, todas as nossas ações, como de todo universo, são movimentadas por causas internas surgidas das externas, Einstein seguindo a tradição espinozista e schopenhaueriana exemplifica: "não acredito, em absoluto, no livre-arbítrio no sentido filosófico. Cada pessoa age não só sob pressão das compulsões externas, mas também de acordo com as necessidades internas. O dito de Schopenhauer: 'Um homem pode fazer o que deseja, mas não pode mandar nos seus desejos' tem sido uma verdadeira inspiração para mim desde a juventude; e é um consolo contínuo ante as dificuldades da vida". Assim, para cada ato que fazemos, houve aquele que o antecedeu e o estimulou, como este último foi estimulado por outro que partiu de uma reação em cadeia no passado e que ninguém sabe onde começou e onde poderá terminar.
Espinosa, na Ética, vai até as últimas consequências desse pensamento: "Fica evidente que somos agitados pelas causas exteriores de muitas maneiras e que, como ondas do mar agitadas por ventos contrários, somos jogados de um lado para o outro, ignorantes de nossa sorte e de nosso destino". Com isso, quando tomamos uma decisão importante, quando estamos diante de algum dilema, no final costuma-se acreditar:" eu tomei essa decisão", se foi uma decisão errada é produzido o arrependimento: "por que eu não optei pela outra decisão?”, mas o que acontece quando estamos diante de um dilema, é que há duas ideias, e sempre prevalecerá a que for mais forte na nossa consciência, como se estivéssemos diante de uma balança, observando e calculando para tomar a decisão. Mas alguém pode objetar, que muitas vezes tomamos decisões, por "livre escolha" que já sabemos a priori, que não seria a melhor, por exemplo, permanecer num relacionamento ruim e fracassado e não se jogar numa aventura amorosa, isso se dá porque a ilusão da liberdade, por nos ser tão estranha, muitas vezes nos causa pânico, como no exemplo citado por David Cooper em Gramática da vida: " O medo das alturas é considerado, em geral, um 'sintoma' neurótico'; mas, na verdade, pode ser uma antecipação da reação 'normal', relativamente plácida, a olhar para uma rua de uma varanda no 15º andar. Primeiro pode-se, prudentemente, esticar a cabeça, e em seguida arrastar-se pela varanda até ser capaz de se por de pé e olhar para baixo sem medo. Tudo gira em torno da experiência da própria liberdade, sendo o medo inicial ao reconhecimento, absolutamente lúcido, de que se é livre de se atirar do terraço e de que nada o poderá impedir. Nesse sentido, não se tem medo das alturas, mas apenas medo de um momento não condicionado da própria liberdade". Posto isto, já somos constrangidos pela Natureza que nos empurra de um lado para o outro, como no nomadismo. Precisou serem descobertas a agricultura e a domesticação dos animais para o homem parar para mudar o rumo, a necessidade impulsionando a evolução. Somos o resultado de uma sequência de eventos, seja o universo, seja o que eu sou.
A própria bíblia se contradiz em relação ao ato de Adão, não foi o livre-arbítrio, mas ele foi determinado pela mulher e a mulher foi determinada pela Serpente. Mas quem teria determinado a serpente se não fosse o próprio Deus? Ou seja, Deus seria a causa da queda do homem, não Adão, que foi apenas a consequência. O mesmo ocorre na psicanalise, quando todo trauma recai na figura do pai e da mãe, "eu sofro de depressão por causa da minha mãe...", mas a mãe foi assim também por causa da mãe dela, não seria assim, então, sucessivamente até chegarmos em Eva? A ideia do livre-arbítrio foi propagada pela igreja pela simples razão de diminuir ainda mais a liberdade humana.
Herbet Marcuse nos mostrou como as ideias de Freud também influenciou na mais-repressão da modernidade. Segundo Marcuse :"o homem animal" , tal como descreveu Freud, " converte-se em ser humano somente através de uma transformação de sua natureza". Faz parte da natureza humana os "valores instintivos", os princípios que governam seus anseios, que é definido pelo Princípio de prazer, mas que é forçado a ser modificado para o Princípio da realidade . No primeiro, há "satisfação imediata" , que a civilização converte para "satisfação adiada"; "prazer" em "restrição de prazer"; "júbilo (atividade lúdica)" em "esforço (trabalho)"; "receptividade" em "produtividade"; "ausência de repressão" para "segurança". Explica Marcuse: " O indivíduo chega à compreensão traumática de que uma plena e indolor gratificação de suas necessidades é impossível. E, após essa experiência de desapontamento, um novo princípio de funcionamento mental ganha ascendência. O princípio da realidade supera o princípio de prazer: o homem aprende a renunciar ao prazer momentâneo, incerto e destrutivo, substituindo pelo prazer adiado restringindo, mas 'garantindo.’" Com essas revelações, percebe-se que o homem apenas vive na sua ilusão de livre-arbítrio, até perder a esperança e esperar a liberdade apenas no paraíso, que é um absurdo, já que tal como ele é descrito, não pode haver a liberdade no paraíso, porque já não existirá mais o fruto proibido. A partir do momento que tomamos conhecimento da nossa não liberdade, que somos uma construção de elementos vindos de fora, efeito da causa, que existem policiais em todo lugar, resta-nos saber em que prisão queremos entrar. O fascista busca as grades do ódio, da repressão; o capitalista, do dinheiro; o crente, de Deus. Em oposição há as prisões do amor, da ética, da arte, que as grades também existem...mas elas podem ser pintadas do jeitos que quisermos.

Marcos Ribeiro







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