O SUICÍDIO COMO UMA VIDA POSSÍVEL
“Não se deve deixar o suicídio para as pessoas infelizes que correm o risco de desperdiça-lo e transformá-lo numa miséria.”
Michel Foucault
Já faz um tempo que anunciam a morte da Arte. De fato, a morte da Arte não foi um evento estrondoso, é uma morte que acontece lenta e agonizante, que já se perdura por décadas, porém é uma morte sem atestado de óbito e por esse motivo poucas pessoas sabem do que ocorre. Mas por que quase ninguém teve essa percepção? Porque com a sua morte, morre também a causa do seu efeito: o homem enquanto humano. Afinal, não seria a ética uma consequência da estética?
Quando Nietzsche nos trouxe uma nova forma de existência, do último estágio para se alcançar o além do homem, da criança, ou daquele que faz da vida uma obra de arte, não estaria ele simplesmente mostrando como viveram os grandes artistas, os criadores em geral? Ou seja, para criar arte é preciso, antes, criar-se como arte.
Dito isto, aquele que escapa do significante, que não mais acredita no “eu sou isso”, passa a ser um “eu serei além disso”, nada definido, nada significado, um “eu”, mas um “eu” provisório, como Bach-música ou Van Gogh-pintura. Mata-se com isso a morte da arte, onde faz nascer o criador; antes de si para produzir arte como sempre foi, como um raio de sol que humaniza todos aqueles que sentem o seu contato.
Com a morte da arte, da estética, como foi dito, restou o humano, mas como minoria, uma minoria massacrada, vista como louca porque quer ressuscitar a arte, é a minoria das minorias, porque não buscam direitos, mas apenas para criar e dar e humanizar um mundo odiável.
Essa minoria que não faz distinção dos campos dos saberes e das contemplações, que só buscam a beleza como única arma de guerra contra o nojo, os imbecis, as forças opressivas do Estado, da burocracia, do capitalismo, enfim, das forças que subjetivam, que desumaniza para a produção de rebanho.
Fala-se de um tipo de artista ou pensador Romântico, datado do século XIX, mas na realidade, todo criador de uma nova existência é romântico. Veja Foucault, que muitos o declaram pós-moderno e por isso niilista, por anunciar a morte do homem, mas isso é outra coisa que os críticos não entenderam. Ele, nada menos quis mostrar do que um mundo melhor ao revelar que o homem nunca existiu, e o que existiram foram formas de subjetivações: subjetivação grega, subjetivação cristã e assim por diante, para assim, atirando a flecha anteriormente lançada por Nietzsche, dizer que o “homem” não passa de uma ilusão, que foi criado como um produto para servir o poder, ou ser disciplinado na sociedade de controle. Assim, ao matar o homem, Foucault pensa noutra forma de criação: a dessubjetivação para a vida se tornar obra de arte.
É uma triste loucura deixar se subjetivar por qualquer poder, é exatamente isso que os poderes querem, lá onde podem ser significante e significar, lá onde criam o sujeito, mesmo nos mais bem intencionados estilos de vida, nos grupelhos, como se para haver resistência, fosse preciso a proteção de um pai, do Estado que patrocina o artista, como o cristão que precisa do padre ou do budista que precisa do sábio.
É isso, para renascer o humano, que foi a essência de todo ser-arte (essência que passa sem indivíduo), é preciso matar-se como homem, como sujeito, como eu, para destruir toda subjetividade: “eu sou isso”, “eu sou assim”, que produz todo ressentimento que faz retornar o homem mesquinho que acredita no salvador, na polícia, no juiz, no mestre, em suma, no inferno. Nada é preciso porque todo humano ético é estético, criador de si. Quanto à proteção, é preciso invocar Deleuze quando lhe foi perguntado sobre sua visão política: “Só se pode pensar o Estado em que está para além dele, o mercado mundial, e ao que está aquém dele, as minorias, os devires [...] Os devires que escapam ao controle, as minorias que não param de ressuscitar e de resistir”.
Enfim, só se ressuscita como um novo humano, quem se suicida como homem, como um vento, um luar, lá onde se diz: “um pouco de possível, senão eu sufoco”.
Os homens-porcos seguirão o seu destino... vivos.
Marcos Ribeiro

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