CONSIDERAÇÃOES SOBRE O ABSURDO EM ALBERT CAMUS
"A partir desta profissão de fé, abrem-se carreiras no absurdo. – a de D. João, a de actor e a de conquistador. Os três- D.João, que recusa o remorso e a esperança, o actor que escolhe a glória inumerável, e que ilustra essa verdade tão fecunda que diz que não há fronteiras entre o que um homem quer ser aquilo que é, o conquistador que preferiu a acção sem nostalgia nem amargura- todos eles possuem, pelo absurdo, um poder real. É certo que estes princípios não têm reino, mas tem a vantagem, sobre outros, de saber que todos os reinos são ilusórios. Um ser no entanto, os ultrapassa a todos: o ser absurdo por excelência, o criador. Este, com efeito, situa-se numa contradição total. Admite que sua criação pode não ser...Porém, a sua consciência iluminada e engrandecida pela obra permanece constantemente desperta e testemunha constantemente imagens brilhantes e sem razão do mundo. Criar é dar forma ao seu destino. Neste esforço quotidiano em que a inteligência e a paixão se misturam e se transportam, o homem absurdo descobre uma disciplina que fará o essencial das suas forças. E imediatamente o mito ocorre como ilustração desse esforço."
Albert Camus abre o seu Mito de Sísifo com a seguinte sentença: “Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio”. Com isso o autor descarta todas as outras explicações e sistemas filosóficos, inclusive o Existencialista do qual muitos o considerava um. Mais adiante ele afirma: “é profundamente indiferente saber qual dos dois, a Terra ou o Sol, gira em torno do outro”. Por que isso? Camus abre espaço para a redenção do absurdo que é, para ele, o que funda o mundo. Assim não serão os tratados filosóficos que nos trarão uma resposta, mas a ausência deles. Por exemplo, na peça O improviso dos filósofos, Camus coloca o personagem, o senhor Néart, numa referência a obra central de Sartre, “Nada”, como um agente que vende ideias novas, e que depois de converter muitas pessoas a esse “novo evangelho”, descobre-se no final que o vendedor era um paciente que havia fugido de um hospício. Dito isto, poderíamos dizer com Camus: Que hospício a céu aberto é o mundo, como há seguidores de ideais, que nada mais são que insanidades ou, absurdos. Nesse sentido, ele nos mostra de como o homem é sempre escravo das suas verdades, que uma vez reconhecidas, sempre se tornará vítima delas. E nesse emaranhado de verdades o homem faz de si o próprio carrasco, tanto do pensamento racional como o da grandeza de Deus. Ora, o homem vive diante do absurdo, nascer é um absurdo, viver é um absurdo, como por exemplo, quando o autor faz o personagem Mersault, de O Estrangeiro, se tornar um assassino porque o sol lhe cegou, queria ali dizer, que a luz que nos faz enxergar, pode às vezes tornar-nos cegos. Assim, por estarmos diante do absurdo, é somente pelo absurdo que encontraríamos a redenção e a resposta para a pergunta central do pensamento camusiano sobre a questão do suicídio.
Vivemos sobre a árdua tarefa do trabalho inútil, a partir do momento que nascemos, fomos condenados a carregar a rocha até o alto da montanha (a rocha que representa o trabalho inútil, as dores, o sofrimento, as frustrações etc.), e na descida, ao contrário da contemplação, nos obrigamos a buscar respostas ou nos anestesiarmos, fenômeno que levam as respostas finais. Respostas que nos levam ao niilismo e a conclusão de que a vida não tem sentido. E o não-sentido é muitas vezes o que dá sentido ao suicídio, mesmo que esse suicídio seja metafórico, ou, a fuga para o nada: o Sísifo que leva a pedra até o cume e depois de não suportar o seu peso, a solta, e desce apenas como o trabalhador inútil dos infernos.
No último capítulo de O Mito de Sísifo, Camus enxerga no herói como o homem que ao voltar para sua vida, após largar a pedra, se torna o cego que deseja ver e que sabe que a noite não tem fim, e por isso sempre em marcha, verá que a pedra não parará, encontrará assim no absurdo a felicidade superior, sobretudo no homem absurdo e em seus personagens: No ator, aquele que escolheu a glória inumerável, que experimenta e se consagra no momento, o que consegue e não consegue, o que não nutre a esperança, pois toda a infelicidade dos homens, diz Camus, provém da esperança, a esperança que traz a frustração, o medo – o ator apenas vive o momento e não se importando com o futuro, com a eternidade, como faz Camus ao citar Nietzsche: “ 𝑶 𝒒𝒖𝒆 𝒊𝒎𝒑𝒐𝒓𝒕𝒂 𝒏ã𝒐 é 𝒂 𝒗𝒊𝒅𝒂 𝒆𝒕𝒆𝒓𝒏𝒂, 𝒎𝒂𝒔 𝒔𝒊𝒎 𝒂 𝒆𝒕𝒆𝒓𝒏𝒂 𝒗𝒊𝒗𝒂𝒄𝒊𝒅𝒂𝒅𝒆”. O Don Juan, o que vive para o amor, o que não se deixa cair no tédio do desamor, do costume. Que não é um simples colecionador de mulheres porque não sente nostalgia, sendo a nostalgia uma outra forma de esperança. Seduzir para ele será sua condição pois, somente nos romances as pessoas mudam ou se tornam melhores. Don Juan, o irresponsável, o que não sofre de má consciência ou de ressentimento, mas o que tem o amor como todo o ser. No criador da liberdade absurda, o que responde a pergunta inicial do suicídio: “Nesse ponto, o problema se inverte. Anteriormente tratava-se de saber se a vida devia ter um sentido para ser vivida. Agora parece o contrário, que será vivida quanto menos sentido tiver. ” Assim como o ator ensinou, que não há fronteira entre o parecer e o ser: a obra, o amor, a conquista é consumada apenas para a inutilidade profunda da vida individual: “criar é viver duas vezes”, e então é encontrada a possibilidade de alcançar a vitória da rocha, pois a rocha é a própria rocha e por isso o absurdo não mais me assusta, porque o homem se descobre como o próprio absurdo. “Os outros estão seguros de que são livres, e esse humor é tão contagioso! ”
Marcos Ribeiro

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