A ILUSÃO DA NORMALIDADE, POR MARCOS RIBEIRO
“Se falo com ironia, leve ou pesada, sobre os porcos da sociedade,
é porque nunca será piedoso mostrar compaixão para com os inimigos desta. ”
David Cooper
Os pensadores do movimento da Antipsiquiatria dos anos 60 e 70, foram os que mais tiraram o véu das instituições ditas sagradas, manipuladoras da “verdade” e da “realidade”; que numa organização entre Estado, igreja, hospital, escola, família, ditam o que são leis, quem é são, para inserir os objetivos, os desejos nas pessoas, ou como disse R.D.Laing: “nascemos num mundo onde a alienação nos aguarda”. Isso deixa claro que, mesmo as pessoas percebendo que a sociedade é doente, educam as crianças que vêm ao mundo da mesma maneira que foram educadas, ou seja, pela própria imbecilidade alienada, alienam os inocentes da mesma maneira que foram alienadas; as prendem à educação para colocar no trilho da normalidade, as preparam para serem o mesmo projeto inacabado e o ciclo continua interrupto, os normais dominando o poder, no entanto, como observou mais uma vez R.D. Laing: "A sociedade valoriza muito o seu homem normal. Ela educa as crianças para se perderem e se tornarem absurdas, sendo assim normais. Os homens normais mataram talvez cem milhões de seus semelhantes normais nos últimos cinquenta anos”.
A criança é o que a escola ensina, os pais, o contexto social, e é preparada para alcançar o diploma, a formação, o emprego, o casamento, a casa, o automóvel, os filhos, a família, ou numa palavra, vencer na vida. Raramente alguém ousa educar uma criança no sentido libertário, de perceber que é ela, a criança, que tem algo a nos ensinar, pelo contrário, querem que a criança aceite da mesma maneira que elas aceitaram, que existe a ordem, a disciplina, que ela precisa abdicar do sonho e da fantasia, para na escola já conviver na prisão da prisão do mundo, com gritos e ameaças ela é levada à normalidade, aprende a se prender por si só às correntes da religião, da moral, do objetivo. Mas é nesse caminho, nessa pressão que muitos se perdem numa viagem para o mundo interior ao invés do exterior, dissolvendo o ego para se tornarem “anormais” ou “doentes mentais”, onde os psiquiatras, os psicólogos, a família, colocam a etiqueta de “esquizofrênico”, como Thomas Szasz disse que é lá onde o indivíduo se personifica, aceita o rótulo que lhe foi colocado, como observou: ” A histeria, a hipocondria, as obsessões e muitos outros itens tornaram-se doenças. Cedo, aos médicos e psiquiatras uniram-se os filósofos, jornalistas, advogados e leigos, rotulando de ‘doença mental’ todo e qualquer tipo de experiência ou comportamento humano que pudessem detectar ou atribuir a um ‘mau comportamento’ ou sofrimento”. Segundo Szasz, até a metade do século XIX, doença significava uma desordem corporal que alterava a estrutura física, e que depois que a dissecação do corpo foi permitida, a anatomia tornou-se a base da ciência médica, podendo observar as numerosas estruturas do corpo e eis o porquê a doença, conhecida como mental se trata de um mito, porque não foi descoberta com base na experimentação, mas foi inventada, por exemplo, diz Szasz: “ Foi provado que a paresia é uma doença, foi declarado que a histeria o é”.
David Cooper, também reflete sobre a legitimidade científica do que pode parecer inquestionável no dogma psiquiátrico: “A ciência natural se fundamenta em cuidadosa observação. Toda investigação deve se processar a partir de fatos observados. Nas ciências física e biológica tais fatos observados são, via de regra, fatos inerentes, isto é, são apreendidos do exterior por um observador, que não é perturbado por eles e não os perturba com o seu processo de observação[...] Numa ciência de interação pessoal, diferentemente, a perturbação recíproca entre o observador e o observado é não só inevitável em todos os casos, mas é esta perturbação recíproca que suscita os fatos primários em que a teoria se baseia”.
Diante dos estudos dos que atuaram no movimento Antipsiquiátrico, a normalidade é que foi diagnosticada como doente, confusa e inexistente, e foi Ronald David Laing ( mesmo não se considerando como membro do movimento), que deixou exemplos extraordinários de que a psiquiatria não poderia ser a medicina autêntica da alma, pelo fato de que é diagnosticado como esquizofrenia, nada menos é que um rótulo, um fato social e nunca uma condição, uma doença, porque por não haver uma prova empírica para o diagnóstico, tudo recai sobre a figura que representa um poder e lança uma conspiração para a criação do rótulo, por que se um psiquiatra pode diagnosticar alguém como anormal, em qual percepção ele se baseia? Precisaria que o psiquiatra fosse, segundo Laing, um observador ideal, mas como poderíamos ter a certeza de que o médico não é o louco e o paciente o médico, para termos certeza precisaríamos de um observador ideal. Diz Laing: "Da terra, de um ponto de vista ideal, podemos admirar uma formação de aviões no ar. Mas a formação inteira talvez esteja fora de rota. O avião que se encontre 'fora de formação' pode estar anormal, errado ou louco do ponto de vista dos demais. Mas a própria formação pode estar errada, ou louca do ponto de vista do observador ideal. O avião fora de formação pode estar também mais ou menos fora de rota em relação à própria formação [...] É de fundamental importância não confundir a pessoa que pode estar 'fora de formação' dizendo-lhe que se encontra 'fora de rota', caso ela não esteja. É de fundamental importância não cometer o erro categórico de supor que pelo fato de um grupo estar 'em formação' isto significa que se encontre necessariamente 'na rota'”. É essa situação que coloca o ponto de vista da psiquiatria em xeque. Como saber se o paciente não está apenas fora de formação, mas dentro da rota? E o médico, por sua vez, estar dentro da formação, mas fora da rota, por estar apenas seguindo as ordens do ponto de vista de outros psiquiatras ou, e se o psiquiatra não é o curandeiro de amanhã? Laing não faz cerimonialismo ao atacar o tratamento psiquiátrico convencional e ao familismo: “ A função da Família é reprimir Eros, induzir a uma falsa consciência de segurança, negar a morte evitando a vida, anular a transcendência, crer em Deus para não sentir o Vazio, criar, em suma, o homem de uma só dimensão; promover o respeito, a conformidade, a obediência; desencorajar as crianças de brincar, induzir o medo do fracasso, promover o respeito pelo trabalho e pela ‘respeitabilidade’”.
Que mundo é esse? São? Mundo rodeado de fascistas, exploradores de corpos e de fé, assassinos, opressores, machistas, preconceituosos, grupelhos, guerras, genocídios, políticos hipócritas, policiais a serviço do poder, justiça prostituída, cegueira capitalista. Estar em formação, quer dizer são, é estar incluso nessa ciranda para proteger e aceitar todas essas aberrações que se escondem sob a máscara da civilização. Enfim, dr. Laing percebeu que é uma ilusão achar que encontraram a verdadeira loucura ou a verdadeira sanidade, e que a loucura, vista hoje como doença, não se trata de um desabamento, mas de uma abertura de saídas, uma cura natural da integração que é imposto a eles. E que há viagens interiores que precisam de uma orientação na geografia do espaço e do tempo interiores, mas sem o excesso de psicotrópicos e em locais que os ajudassem a vencerem as tempestades dessa viagem.
No entanto, os psiquiatras em cooperação com as famílias, tentam ajudá-los, ajustá-los a qualquer custo, mas será que ao invés da busca da cura, não estão produzindo "monstros" e com isso perpetuando a irracionalidade do sistema? O drama do paciente é, até o momento, estar preso num cumprimento de uma sentença médica e política, por não se tratar apenas de um diagnóstico, mas de uma prescrição social.
No entanto, os psiquiatras em cooperação com as famílias, tentam ajudá-los, ajustá-los a qualquer custo, mas será que ao invés da busca da cura, não estão produzindo "monstros" e com isso perpetuando a irracionalidade do sistema? O drama do paciente é, até o momento, estar preso num cumprimento de uma sentença médica e política, por não se tratar apenas de um diagnóstico, mas de uma prescrição social.
Marcos Ribeiro

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